terça-feira, 1 de março de 2011

Os surdos, os ouvintes e os outros

No outro dia deu uma reportagem na Tv sobre surdos. Mais precisamente, sobre surdos e a sua relação com o som e o silêncio.
Este tipo de reportagem é algo que me desperta a atenção. Pelos motivos mais óbvios, mas também porque é o único tema em que os canais de televisão usam e abusam das legendas. Porque será que só se preocupam com isso quando se aborda a surdez?
Eu gosto de ver reportagens, mas confesso que é deveras frustrante. Primeiro, porque para mim estas são apenas a imagem que se vê no ecrã e segundo, porque mesmo pedindo a alguém que me vá "traduzindo" aquilo que os interlocutores dizem, nem sempre resulta. É aqui que está implícita a minha dependência num ouvinte.

Considero que este assunto daria um debate exaustivo, mas o que me leva a escrever isto é apenas a distinção que se faz. Há os surdos, os ouvintes e os outros, sendo que me considero mais encaixada nos "outros".
Passo a explicar... sendo surda profunda, parece-me óbvio que a maioria me enquadre na comunidade surda. No entanto não me sinto assim. Para mim, comunidade é algo que implica uma convivência social com os seus pares, neste caso, com outras pessoas que sofrem da mesma deficiência e juntas criam o seu ambiente ideal. É o que me parece que acontece quando vejo um grupo de surdos a conviver e a conversar usando a LGP.
Eu, tal como a maior parte de vós se calhar, gosto de ver. Gosto de olhar para eles quando falam com as mãos, e exprimem palavras e emoções com simples gestos. Acho lindo. Mas é aí que me começo a sentir excluída, pois nunca tive essa convivência, nunca aprendi LGP, nunca participei em debates exaustivos onde a palavra é rainha, seja saída da boca ou das mãos.
Sendo uma surda "falante", estou mais próxima da comunidade ouvinte. Aqui sim, estou mais integrada pois de certo modo é o ambiente que sempre conheci. Mas até que ponto é satisfatório para mim? Onde termina a minha independência? Esta necessidade constante de ter de recorrer, de precisar sempre de alguém para "complementar" uma simples tarefa?
Não sou ouvinte, mas não me sinto completamente surda. Dá para entender?

6 comentários:

Manuela disse...

Querida Zita, parece que estás ali no limbo, entre os dois mundos. Como tu defines e muito bem, nos "outros".
Só uma pergunta porque eu sou curiosa, por natureza: nunca aprendeste linguagem gestual, porque não quiseste ou precisaste?
Beijinhos.

zitamina disse...

acho que a resposta é porque nunca precisei. perdi a audição aos 9 anos e, como é óbvio, já sabia falar. a "sobrevivência" fez-me aprender instintivamente a leitura labial, e sempre foi assim. outro motivo, foi o facto de os médicos não concordarem com eu aprender LGP. tinham medo que eu deixasse de falar, uma vez que deixei de ouvir.

beijinhos :)

ps- neste momento tenho um implante coclear, ou um ouvido biónico, se preferires... já ouço qualquer coisinha. mas as barreiras... as barreiras continuam lá ;)

ana disse...

Já fiz formação em LGP e experienciei um convivio da comunidade de surdos... Senti-me uma estranha!
A comunicação com a Zita é muito boa, melhor do que com muitos ouvintes que me rodeiam, chega sempre com um sorriso que contagia!
Comunicar não é simplesmente trocar palavras, por vezes um sorriso, um gesto vale muito mais que um dialogo. Hoje estamos rodeados de falantes "surdos". Não se diz obrigado, por favor, bom dia, mesmo quando vamos no comboio, no hipermercado...
Será que para além de surdos não andam muitos de nós cegos??

ana disse...

Dou os parabéns pela coragem de estar no meio de ouvintes, de lutar, de ultrapassar barreiras, mesmo que pareçam pequenas...
Peço desculpa pela ousadia, mas segundo um olhar recente mas cuidado...A Zita pode sentir-se feliz por estar a educar uma "tagarela" linda. Afinal existe diferença entre a Zita e outra mãe? Acho que não...

zitamina disse...

ana, a minha tagarela faz-me sentir uma felicidade sem precedentes. talvez por isso me vejas sempre com um sorriso ;)

obrigada pelas palavras, do fundo do coração. gosto de saber que ela passa o dia com uma pessoa assim tão atenta e sensível.
beijinhos

Sun Melody disse...

Zita,

Tu já sabes o resto da história, encaixo que nem luva nos "outros" - nunca tive necessidade em aprender Língua Gestual apesar de ter perdido audição aos 18 meses de idade - o médico dos olhos azuis achou melhor eu aperfeiçoar na oralidade - pelos vistos tinha razão, tornei-me uma surda "falante".

Oh, antes de tudo não me considero surda, uma vez que não possuo aquela identidade aclamada da comunidade surda em detrimento da cultura dos gestos. Sendo assim, corrijo: deficiente auditiva até porque escuto como uma cyborg vulgo ouvido biónico.

Não estamos sozinhas, encaixadas nos "outros" - e estes "outros" são imensos! :)

Beijinhos sonoros.
Sun